

Prêmio Especial Porto Seguro - Aquisição
ROSÂNGELA RENNÓ
Conjunto da Obra referente ao tema desta Edição.
A escolha dos trabalhos que representarão o Prêmio será feita
pelos curadores da edição 2008, juntamente com o fotógrafo
premiado.
Valor do Prêmio: R$ 30.000,00 (trinta mil reais). Veja fotos saiba+
Prêmio Porto Seguro Brasil – Aquisição
ANTONIO MONTEIRO GOIS (TONHO CEARÁ)
Valor do Prêmio: R$.18.000,00 (dezoito mil reais). Veja fotos saiba+
Prêmio Porto Seguro São Paulo - Aquisição
FELIPE PONTONE HELLMEISTER
Valor do Prêmio: R$.18.000,00 (dezoito mil reais). Veja fotos saiba+
Prêmio Porto Seguro Pesquisas Contemporâneas - Aquisição
Tendo em vista a qualidade do processo investigativo percebido no trabalho
de dois artistas, e não havendo a indicação para
o “Prêmio Revelação”, a Comissão
de Seleção resolveu conceder dois Prêmios “Pesquisas
Contemporâneas”, resultado da soma dos valores de premiação
dessas duas Categorias.
FRANCISCO SIEGBERT FRANKLIN DE OLIVEIRA (SIEGBERT FRANKLIN)
Valor do Prêmio: R$.14.000,00 catorze mil reais). Veja
fotos saiba+
MARISTELA WINCK
Valor do Prêmio: R$.14.000,00 catorze mil reais). Veja
fotos saiba+
2.1. SÃO PAULO
Arnaldo Papalardo. Veja fotos saiba+
Daniel Athayde. Veja fotos saiba+
2.2. BRASIL
Alberto Bitar. Veja fotos saiba+
Luiz Braga. Veja fotos saiba+
Ludovic Careme
Marcelo Buainain.Veja fotos saiba+
Marcio Scavone
Valdemir Cunha. Veja fotos saiba+
2.3. PESQUISAS CONTEMPORÂNEAS
Carlos Moreira. Veja fotos saiba+
Coletivo Cia de Foto. Veja fotos saiba+
Gilda Mattar. Veja fotos saiba+
Guilherme Maranhão. Veja fotos saiba+
Exposição aberta ao público de 11 de novembro a 14 de dezembro de 2008 de terça a domingo, das 10h às 18h
estacionamento no local
Local: al. barão de piracicaba, 740 – campos elíseos
são paulo, sp 01216-010
A oitava edição do Prêmio Porto Seguro Fotografia recebeu 1 360 inscrições, reunindo 8 468 obras fotográficas, vindas de 25 estados brasileiros, mais o Distrito Federal. Apenas o Tocantins não apresentou inscrições.
Tendo como eixo o retrato – com as suas diferenças, pontos
comuns, naturezas, formas e modo de produção diversificado;
suas inúmeras possibilidades de atualizações potenciais
e multiplicidades de sentidos e percepções – a nortear
os critérios para a seleção e premiação
desta edição, o Prêmio Porto Seguro Fotografia apresenta
um “mapeamento da prática dessa modalidade de representação
no Brasil, contemplando as inúmeras possibilidades do retrato – desde
a concepção humanista até a desconstrução
contemporânea” (Annateresa Fabris).
Como um panorama de excelência da fotografia brasileira, a Mostra
2008 apresenta uma diversificação de olhares e a procura
de uma linguagem pessoal, aliadas a linguagens contemporâneas caracterizando
o conjunto.
Rosângela Rennó, mineira radicada no Rio de Janeiro, recebeu o Prêmio Especial Porto Seguro pelo conjunto da obra desenvolvida sobre a fotografia. Seus trabalhos propõem uma resignificação de imagens preexistentes, recolhidas em álbuns familiares e arquivos fotográficos, e seus desdobramentos.
O paulista Felipe Hellmeister recebeu o Prêmio Porto Seguro São Paulo por seus retratos, instantes de personagens anônimos da cidade. Em alguns surgem, sutilmente, expressões confidenciais de seus retratados.
O Prêmio Porto Seguro Brasil foi para Tonho Ceará. Cearense radicado em Recife, instalou sua câmera nos arredores do Mercado de São José, tradicional localidade de lambe-lambes da cidade. Suas fotos posadas, tiradas contra um fundo de encerado de caminhão, revelam figuras de personalidades múltiplas e externam individualidades e expectativas.
A paranaense, radicada no Rio Grande do Sul, Maristela Winck, recebeu
o Prêmio Porto Seguro Pesquisas Contemporâneas com a instalação
A última ceia, uma poética da mulher. A obra é resultado
da intersecção de cenário, performances, fotografia,
seleção, manipulação de imagens e montagem,
criando interface de linguagens e técnicas contemporâneas.
Siegbert Franklin, de Fortaleza, Prêmio Porto Seguro Pesquisas Contemporâneas, desenvolve seu trabalho a partir de imagens apropriadas de álbuns de família e superposições de desenhos, textos, pinturas e tecidos. Com esse trabalho, recupera a memória na reflexão da identidade.
Marcio Scavone, de São Paulo, e Ludovic Carème, nascido em Paris e radicado em São Paulo, com seus retratos de personalidades brasileiras das artes, transpõem em uma só imagem as múltiplas personas encarnadas pelos retratados.
Gilda Mattar, de São Paulo, olha à sua volta ao acaso. Sem preconceitos, apreende aquilo que muitas vezes é desprezado, desenvolvendo uma gramática particular e plena de estranhamentos.
Daniel Athayde, de São Paulo, observa os outros, documentando uma realidade oculta nos gestos de seus modelos.
Luiz Braga, de Belém do Pará, elabora fotos nas quais o retratado interage com disfarçada cumplicidade com o fotógrafo, criando um clima de sensualidade e lirismo.
Marcelo Buainain, de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, revela rostos como máscaras sociais. Seus personagens são enquadrados em situação quase onírica, estabelecendo um discurso fenomenológico da imagem.
Valdemir Cunha, de São Paulo, produz um inventário incompleto de tipos brasileiros. Em uma interação com os modelos ressalta, pelas luzes e cores, o estabelecimento de diálogos óticos.
Arnaldo Pappalardo, de São Paulo, com seus retratos de composição arrojada, propõe uma profunda reflexão sobre tempo e espaço, personagens e situações incomuns.
Carlos Moreira, de São Paulo, apresenta fotos de retratos, livros, objetos e brinquedos antigos em arranjos de caráter arqueológico. Ao mesmo tempo, elabora uma reflexão sobre o detalhe, sobre o funcionamento correto do todo, relacionado com as partes.
Alberto Bitar, de Belém do Pará, com sua Série Partida, de fotos manipuladas, cria um discurso de memórias e histórias nos rostos que se transformam com o passar do tempo, criado por transmutação do instante, como o presente no passado.
Guilherme Maranhão, de São Paulo, ancora seus trabalhos em uma pesquisa de materiais bastardos, retirados do lixo: filmes vencidos, imagens tecnicamente descartáveis, interferindo e criando uma linguagem ímpar. Está voltado para a busca de alterações do processo de formação de imagens técnicas e da subversão das ferramentas produzidas pela indústria.
O coletivo Cia de Foto, de São Paulo, apresentou o objeto Caixa de sapato. Como as tradicionais caixas de fotos de nossa intimidade e história, uma atenção ao trivial, o visitante terá que manusear a obra para se envolver e apreciar as questões propostas pelo grupo.
cildo oliveira
Rosângela rennó
prêmio
especial porto seguro
dos múltiplos aspectos do retrato
O interesse dos artistas visuais pela fotografia conhece um incremento
significativo na década de 1960, quando os novos realismos se
impõem com força na cena internacional, questionando a
crença na abstração como objetivo supremo da arte.
Ao tomarem a imagem fotográfica como um ponto de partida quase
obrigatório, os pintores desse período colocam freqüentemente
em discussão o espaço figurativo e a ideologia realista
a ele associada. Longe de detectarem na fotografia um grau zero formal,
os artistas das novas figurações evidenciam algo oposto:
seu caráter de código, de produto de uma racionalidade
que se dá a ver na organização geométrica
da composição, a qual nada mais seria do que o equivalente
de um universo ordenado de valores e de significações.
O estranhamento do real inerente aos novos realismos e a consciência
de que a imagem estava usurpando o lugar antes pertencente ao objeto
concreto tornam-se mais agudos em certas vertentes da arte conceitual,
para as quais a fotografia não é algo dado, e sim um meio
cujos mecanismos e usos devem ser analisados e evidenciados. Se a esse
questionamento do realismo da fotografia for acrescentada a idéia
de coleção/arquivo, presente em muitas operações
conceituais, será possível ver em Rosângela Rennó uma
herdeira legítima desse tipo de preocupação.
Interessada, desde o início de sua trajetória (década
de 1980), na apropriação de imagens preexistentes, a artista
dedica uma atenção especial a uma das produções
fotográficas mais difundidas: o retrato. O fato de não
fotografar pessoalmente, de não pretender estabelecer nenhum tipo
de pacto com o real coloca suas operações naquele âmbito
da arte contemporânea que tem em Marcel Duchamp seu nume tutelar.
As estratégias visuais adotadas por ela diferenciam-se, porém,
do gesto duchampiano, visto não serem regidas pela indiferença
perante o objeto e, muito menos, pela suspensão de todo critério
estético, perseguidas pelo artista francês.
Na contramão dessas atitudes, Rosângela Rennó confere
uma intencionalidade estética precisa às imagens de que
se apropria, graças a recursos como a fragmentação
e a recombinação (Puzzles, 1991), a ampliação
(Duas lições de realismo fantástico, 1991/1994),
a deformação (Primários, 1992; A bela e a fera,
1992; Humorais, 1993), a ocultação total ou parcial das
figuras (Obituário preto, 1991; Parede cega, 1998/2000; Série
vermelha, 1996/2003), a aparição fantasmática (Amnésia,
1991; Obituário transparente, 1991), dentre outros. O uso dessas
diferentes estratégias visuais não só retira os
retratos de que a artista se serve do anonimato ao qual seriam relegados
por sua condição de produto serial e de massa (destino
do qual não escapariam, apesar de suas pretensões “artísticas”,
nem mesmo as composições que integram a Série vermelha),
como os dota de qualidades insuspeitas e intrigantes que levam o espectador
a dedicar-lhes uma atenção prolongada.
O deslocamento de sentido visado pela artista ganha uma nova força
na série Vulgo (1998). Constituída a partir de retratos
peculiares – tomados de costa, em ângulo superior ou mostrando
apenas partes do rosto –, esta série pode ser considerada
como um jogo com o conceito de punctum, enunciado por Roland Barthes
em A câmara clara (1980). Se, para o autor, o punctum é aquele
detalhe ínfimo capaz de perturbar o olhar, as pequenas manchas
de cor que Rosângela Rennó coloca nas cabeças indiferenciadas
de Vulgo induzem o espectador a buscar um sentido ulterior para as imagens
e a desconfiar da superfície de uma aparência, capaz de
ser colocada em xeque por um gesto mínimo.
Uma estratégia inversa é mobilizada naqueles “retratos
no retrato não intencional”, que são o eixo direcional
de Corpo da alma (1990/2003). Nesta série, integrada por fotografias
de imprensa, o caráter indicial do registro é colocado
em crise por um tratamento digital que acentua a trama da imagem impressa,
disseminando contrastes tonais por toda a superfície. O filtro,
que se interpõe entre o que o registro fotográfico pretende
mostrar e o que se oferece de fato ao olhar, acaba transferindo para
uma zona de irrealidade aquilo que, na origem, vinha carregado de significados
políticos e sociais.
As diferentes formas de visualização que a artista propõe
para seu arquivo de retratos podem ser inscritas no âmbito de um
questionamento contínuo da idéia de que a imagem fotográfica é um
análogo da realidade objetiva. Ao transformar em presença
ora fantasmática, ora lúdica, ora crítica esse axioma
do século XIX, emanado da filosofia positivista, Rosângela
Rennó traz para o primeiro plano a problemática de um real
construído por intermédio de aparelhos (dentre os quais
o fotográfico), desviando, desse modo, suas imagens de um fluxo
unidirecional, próprio da lógica dos meios de comunicação
de massa.
A temporalidade fragmentada – que está na base de todas
estas operações – transpõe os retratos dos
quais a artista se apropria do âmbito da amnésia social,
que parecia ser seu destino, para um tempo dilatado e sem contornos precisos,
por responder a uma lógica interna, alheia ao primeiro significado
das imagens. Esta temporalidade fragmentada encontra sua razão
de ser na série, concebida como um inventário aberto, sem
começo e sem fim, como um conjunto de pequenas diferenças
num universo aparentemente homogêneo.
Ao sublinhar essa diferença em seus múltiplos retratos,
Rosângela Rennó instaura um jogo dialético com a
idéia da individualidade como modelo social. Trata-se, sem dúvida,
de um jogo dialético porque o retrato, concebido no passado como
manifestação suprema do indivíduo, se torna, no
interior da estrutura serial engendrada pela artista, um produto do sistema
e de seus aparelhos, a despeito da miríade de “mínimos
eus” que pululam pelo espaço social.
annateresa fabris