O cotidiano elegante de Otto Stupakoff
O Brasil está (re) descobrindo Otto Stupakoff. E para ajudar nesta empreitada, a editora Cosac Naify lança agora o livro Otto Stupakoff, uma viagem por seus trabalhos ligados à moda e às suas andanças pelo mundo.
“O mais internacional dos artistas paulistanos”, segundo Rubens Fernandes Junior, e o primeiro fotógrafo de moda do Brasil nos anos 50, Otto Stupakoff passou mais de 40 anos perambulando pelo mundo. Em 1965 mudou-se para Nova York, morou em Paris, retornando mais tarde aos Estados Unidos, onde permaneceu até voltar para o Brasil.
A antologia reúne, além de uma série notável de fotografias de moda pelas quais Otto ficou conhecido, imagens que ele produziu ao longo de mais de 50 anos. São retratos familiares, de celebridades, fotos de viagens. Qualquer imagem é pretexto para uma narrativa de Otto Stupakoff, que cria climas e nuanças em cada um dos instantes fotografados.
O livro abre com o texto “Lembretes”, uma crônica na qual o próprio fotógrafo arrisca um rápido resumo das suas atividades. Texto pontual, resume uma vida que parece se desdobrar pela riqueza das cirncunstâncias por ele presenciadas: suas viagens, seus encontros, seus amores, relembrando amigos, fotos e situações do seu cotidiano.
Num bate-papo delicioso com Álvaro Machado, Augusto Massi e Rubens Fernandes Junior, agregado ao livro em forma de entrevista, ele relembra o início como fotógrafo, depois de tomar a decisão de abandonar a primeira vocação de ser cineasta. Ali, informalmente, Otto discorre sobre a importância da formação cultural de um fotógrafo, sobre a necessidade de referências, dos encontros fortuitos que se transformaram em amizades – como quando, aos 17 anos, ao se mudar para os Estados Unidos para estudar fotografia em Los Angeles, conheceu Carmem Miranda; ou seu seu encontro com a diretora de arte Bea Fetler, e ainda outros fotógrafos como Helmut Newton, Irving Penn e Diane Arbus. Naturalmente, Otto também relembra as primeiras imagens de moda, e a criação de uma estética que ainda estava se formando no Brasil. A entrevista faz as vezes, assim, de um passeio pelo modo de olhar de Otto Stupakoff.
Ao iniciar seu trabalho como fotógrafo, Otto foi ao pouco se dando conta do seu diferencial: não trabalhava como se estivesse fotografando para editoriais de moda, mas como se estivesse produzindo imagens para álbuns de família. Suas imagens se assemelham muito ao cotidiano, como se fossem sido feitas durante encontros familiares. Singelas, porém com uma carga informativa bastante elevada.
O talento de Otto em contar histórias, a capacidade em suscitar sutilezas, faz com que, ao lermos essas conversas sobre as fotografias, tenhamos a impressão de ter participado do momento da foto, como se estivéssemos presentes enquanto ele fotografava. A mesma naturalidade, portanto, que vemos tão nitidamente em seus trabalhos, pôde ser captada tanto texto de abertura, quanto nas respostas à entrevista.
O nome Otto Stupakoff tornou-se lenda no Brasil e há pouco ele tem sido redescoberto por aqui. Durante anos falava-se em Otto Stupakoff, mas pouco se conhecia realmente de seu trabalho. Este livro nos traz um belíssimo apanhado da obra do fotográfo, do qual não escapa o testemunho da capacidade de se apaixonar. Há em cada imagem uma entrega, como se cada fotografia fosse única – ou talvez a última. Tudo em nome de uma única paixão: a fotografia.
Paixão essa que é relembrada no texto do crítico e pesquisador Rubens Fernandes Junior que ao discorrer sobre “A fotografia como expressão da imaginação” escreve: “ao nos depararmos com a obra de Otto Stupakoff, o mais internacional dos artistas paulistanos, podemos entender porque a fotografia é um privilegiado instrumento de observação da natureza humana”.
No livro, há ainda depoimentos de outros profissionais sobre Otto e sua obra. Paulo Borges, o diretor do Fashion Week, faz um breve histórico da fotografia de moda, inserindo Otto no melhor desta tradição: “Como poucos, além de todos ingredientes necessários à sedimentação de um ‘bom’ fotógrafo, [Otto] fotografa com virilidade e amor”. Um texto assinado por Bob Wolfenson e Fernando Laszlo situa Otto na na delicadeza da bossa-nova, pela “concisão, a economia de efeitos, o tom coloquial, o conteúdo aparentemente frívolo de suas fotografias”. Como se Otto pertencesse a uma outra época, de glamour e alegria: “talvez porque não haja mais tempo para a delicadeza, a graça e o imenso humanismo de seu olhar”. Há ainda textos do o jornalista Hélio Hara, que foca principalmente a carreira internacional, e do publicitário e galerista Mario Cohen.
Uma cronologia no final do livro nos ajuda a acompanhar suas andanças e o desenvolvimento de sua linguagem.
Otto Stupakoff é sem dúvida uma obra fundamental para ajudar a construir nossa memória fotográfica.
Fotografia na Cosac Naify
Cuba por Korda, Alessandra Silvestri-Lévy e Christophe Loviny
Notas de viagem, Thomaz Farkas
A vulnerabilidade do ser, Claudia Andujar
Fotografia moderna no Brasil, Helouise Costa
e Renato Rodrigues da Silva
Rosângela Rennó, Coleção FotoPortátil
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