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Todo fotógrafo tem um pouco de caçador

Tiago Sozo Marcon

Limpou a lente e a máquina como quem acaricia um filho. Às vezes até parece mesmo uma filha. Dá-lhe atenção cuidadosa quase todos os dias, afaga, acaricia; volta e meia até entabula uma conversa. Não se trata de devaneio ou alucinação, ele sabe da separabilidade entre ambos, embora não desejasse o fato:precisa que a máquina seja uma extensão de seus olhos, se quiser umas fotos boas. Não apenas isto; é necessário também que consiga lembrar concretamente de cada detalhe que viram juntos, em tantas daquelas saídas. E a memória do homem, neste ponto, ainda é inconfiável e limitada, humana que é.

Dia desses comprou uma bolsa elegante e estofada só para ela. A mulher olha ao longe o momento dos dois, sente uma brisa tépida de ciúme que logo passa. "Ele está tão bem-humorado agora, o olhar tem algo de quando éramos namorados...."

Então ele pega as chaves do carro, a nova bolsa e, com sua companheira bem protegida, sai a passeio. Pela cidade. Quer sentir o furor da vida no final de tarde, capturar algo desta atmosfera singular. Depois, passa por um ou outro bairro, detêm-se num velho muro de tijolos. Mira uma guria linda esperando distraída o ônibus,clic, clic, clic. Agora ruma para as cenas rurais, colônias verdes e douradas paisagens bucólicas que o fazem mais leve.

No restrito universo bidimensional do visor de sua máquina, o fotógrafo é como um Deus: solitário, é apenas ele quem decide o que irá aparecer ou não em sua obra. Gira a lente para medir enquadramentos, caminha um pouco para o lado e se abaixa, suprime, inclui, corta, acentua, dá vida ao que deseja. Ou mesmo despreza o que lhe não agrada. Um ferreiro na forja, em pleno ato sensitivo de trabalho.

Ou um mentiroso, um falsário. Talvez um ladrão, quando rouba uma cena. Ele sabe que a fotografia é também arte, e como toda a arte ela não passa de um embuste, uma mentira, uma fraude. Um crime. São as regras do jogo. No instante do clicderradeiro o que seria já era, um segundo para sempre irrecuperável, impublicável na amplitude de sua dimensão. Os bits luminosos enjaulados no silício eternizaram apenas uma pequena parte daquele átimo cognitivo. Pedaço de vida para sempre escoado pelo ralo do tempo.

Aos amigos do clube onde se reúnem para celebrar a paixão comum ele diz de seu sonho: capturara fotografia perfeita, a imagem suprema messiânica, o ícone imagético que fizesse as pessoas exclamarem "nossa, que fotografia mais legal!" e a ela dispensassem largos sorrisos; uma figura que causasse sensações de bem-estar, ondas de ânimo percorrendo o corpo de quem a segurasse na mão. Não por vaidade ou desejo de ser reconhecido, ele não é daqueles que dispensam muitos olhares ao próprio ego. Quer simplesmente fazer algo de bom e positivo, algo que atenue um pouco tudo o que nos é enfadonho ou dolorido, aqui na prisão do corpo, do tempo e do espaço. Seria uma fotografia que pudesse fazer a menina tristonha, machucada pelas armadilhas da existência, sorrir efusivamente, gargalhar até; uma fotografia que pusesse de pé o doente esquecido e solitário do hospital e o fizesse acreditar que ainda existe vida e que vale a pena viver mais um pouco, nem que seja só pra um dia ver ao vivo o lugar retratado naquela fotografia.

E ao sorrir suave por ter acertado bem em cheio o coração de tantas pessoas, ele então reclinaria um pouco a cabeça satisfeito e recordaria a frase de seu avô, fotógrafo old timer; uma frase que ele nunca esqueceu pois a ouviu criança, pronunciada por um homem que também atingiu corações mirando sua velha máquina na direção de tantas presas: "Todo fotógrafo tem um pouco de caçador".