Artigo de Gisele Martins

Artigo da Gisele Martins, do Luminous, para a Revista Brasileiros, Edição 16 - novembro - 2008

Oxum na Achiropita

Igreja tradicional do Bexiga, bairro paulistano, celebra missas católicas com elementos do candomblé e resgata a mistura cultural de seus moradores

Gisele Martins / Ímã Foto Galeria

Vivi durante 12 anos no bairro do Bexiga, em São Paulo, e decidi revisitá-lo para mostrar as celebrações de religiosidade afro-brasileiras, realizadas no Candomblé de Pai Francisco de Oxum e na Igreja Nossa Senhora Achiropita, com seus batizados, casamentos e missas de São Benedito, da Mãe Negra e de Zumbi dos Palmares. Este meu trabalho começou a ser desenvolvido durante o projeto "Povos de São Paulo - Uma Centena de Olhares sobre a Cidade Antropofágica", de 2004/2005, do qual participei no grupo "Cultos, Crenças e Misticismos", coordenado pelo fotógrafo Egberto Nogueira, da Ímã Foto Galeria.

Ao longo dos últimos anos, continuei fotografando essas celebrações e o resultado pôde ser visto na minha exposição individual "Olha que Eu Vim Lá de Longe", exibida na Pinacoteca do Estado de São Paulo entre novembro de 2005 e março de 2006, com curadoria de Diógenes Moura.

O Bexiga é um bairro sui generis da capital paulista, marcado pelo encontro cultural de negros e italianos. E, mais recentemente, dos nordestinos. Essas populações só fizeram enriquecer o panorama cultural da cidade. Ícone da presença italiana em São Paulo - os imigrantes começaram a chegar no século XIX -, o bairro também abrigou o quilombo do Saracura. Os negros antecederam os italianos na região, porém sua história é menos conhecida, ainda que o bairro seja o berço da escola de samba Vai-Vai. A convivência entre essas culturas e etnias distintas se reproduz na Paróquia Nossa Senhora Achiropita, construída na tradição calabresa e onde são celebrados missas, batizados e casamentos afros.

A presença de elementos da cultura afro-brasileira nas celebrações católicas na Achiropita foi idealizada pelo sacerdote Antônio Aparecido da Silva, o Padre Toninho, segundo padre negro na paróquia do Bexiga. Ao assumir a função de pároco, ele julgou que o momento era oportuno para organizar um grupo pastoral na
comunidade voltado para o resgate e a preservação das raízes culturais afro-brasileiras. No ano de 1988, quando foi comemorado o centenário da abolição da escravatura no Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) escolheu o negro como tema da campanha da fraternidade.

A primeira missa afro-brasileira na Achiropita foi celebrada no fundo da igreja, meio às escondidas, com a desaprovação de muitos, até mesmo da comunidade negra. A novidade mostrou-se, a princípio, assustadora. Os mais conservadores chegaram a fazer um abaixo-assinado pedindo a transferência do Padre Toninho. O então arcebispo de São Paulo, D. Paulo Evaristo Arns, porém, apoiou o padre. Com isso, a maioria da população católica do Bexiga acabou aprovando a iniciativa. Em 1998, D. Paulo celebrou sua última missa como arcebispo de São Paulo na Achiropita. Era a missa da Mãe Negra.

A Pastoral Afro busca recuperar as raízes do povo afro-brasileiro, valorizar sua cultura e resgatar sua dignidade. Procura também estimular a comunhão cultural, combatendo o racismo contra qualquer povo ou etnia. Padre Renato Scano, um dos párocos habituais nas celebrações afros, um legítimo representante dessa mistura étnica existente no Bexiga - é filho de pai italiano e mãe negra e tem sua história ligada ao bairro -, foi coroinha na paróquia em 1938.

Durante a história do negro no Brasil, a religião constituiu-se o traço mais forte de preservação dos seus valores. Assim, ao se organizarem, os integrantes da Pastoral foram buscar no candomblé, na umbanda e no catolicismo popular os elementos culturais para suas cerimônias. Essas celebrações diferem das católicas tradicionais pela liturgia, que envolve canto e dança ao som dos atabaques e outros elementos da cultura negra, tais como a indumentária, a decoração, o ofertório à base de comida, os recipientes de barro, a água-de-cheiro, a reverência à memória dos ancestrais e as congadas.

Algumas de suas características mais marcantes são a descontração e a energia - o negro manifesta a sua fé com festa e uma alegria contagiante. "O negro reza dançando e dança rezando, porque não celebra somente com a cabeça, mas com todo o corpo. Quando os atabaques tocam, o corpo mexe e quer louvar a Deus", disse Padre Toninho em uma palestra na Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), em São Paulo, citada no livro Axé, Madona Achiropita - Presença da cultura afro-brasileira nas celebrações da igreja Nossa Senhora Achiropita (Edições Pulsar/SP/2001), da jornalista e socióloga Rosângela Borges.

No livro, Padre Toninho afirmou que "a estrutura da Pastoral e a de um candomblé é muito semelhante. Há uma convivência, uma coisa comunitária, bem própria do candomblé. A maneira de estar e de ser das pessoas, o vínculo que se estabelece, essa coisa de família são muito íntimas no candomblé. E depois, quando termina a missa, sempre tem alguma coisa para comer. Essa sociabilidade tem tudo a ver com o que ocorre num terreiro, ou melhor, numa roça de candomblé". A feijoada servida no salão da igreja após a missa da Mãe Negra já virou tradição no bairro.

O diálogo ecumênico e inter-religioso, especialmente com as religiões de origem africanas, é um aspecto importante numa celebração afro, com a presença no altar de pais-de-santo e, eventualmente, sacerdotes de outras religiões. Na Achiropita, os ideais de luta e preservação da identidade cultural estão acima de qualquer divergência religiosa. O baiano Pai Francisco de Oxum, ele mesmo um freqüentador das missas na Achiropita, tem seu terreiro no Bexiga há quase 20 anos.

Gisele Martins, economista

Formada em economia pela Faculdade de Economia e Administração (FEA-USP), com pós-graduação em marketing e propaganda pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e em comunicação na Fundação Getúlio Vargas (FGV). Trabalha no Departamento de Análise de Mercado da TV Globo. Paralelamente, tem interesse por história e filosofia, e dedica-se à fotografia com paixão.