Artigo de Yuri Bittar

Fotografia - Realidade ou Cópia?

A discussão que proponho aqui diz respeito à natureza da fotografia. Será a fotografia uma cópia empobrecida da realidade, um simulacro? Ou será ela outra realidade, uma visão real em si mesma, apenas originaria da realidade de que foi extraída. Ou ainda poderíamos dizer que é impossível essa tentativa de definição, já que nem podemos definir com segurança o que é real, muito menos o que não é? Essa questão não é nova, e preocupa o homem desde que ele mesmo passou a criar imagens.

As Pessoas e a Fotografia


Há muito tempo me preocupo com a relação das pessoas com as imagens. Especialmente com a fotografia, e mais ainda com a fotografia profissional, que por ter às vezes mais qualidade ou mais conceitos embutidos, podem conduzir as pessoas com algum propósito. Este problema está mais latente na atualidade, na era do digital, nesse momento de sobrecarga visual em que vivemos.
A questão que se coloca é, se a fotografia é falsa, um simulacro, uma representação irreal, extraída da realidade e empobrecendo esta? A essa questão outras podem ser opostas: mas é o real assim tão real mesmo? E a fotografia pretende ser real? Essa questão não é nada nova, pelo contrário, nos acompanha há milênios. Diversos filósofos da maior importância tem se dedicado a entender a relação homem-imagem.

Imagem como Simulacro

Para Jean B. Baudrillard, importante filósofo do século XX, a imagem é um pobre simulacro, vazio de significado, uma mera cópia, que não capta nada do real. Assim também pensava Platão, 25 séculos antes, pois ele não via nenhum valor nas imagens, nas artes, já que estas, além de pretender imitar o real e não conseguir, ainda privava as pessoas de ver o que era mesmo importante, a realidade por si mesma. Veja por exemplo o mito da caverna, Platão vê imagem como correntes que nos prendem ao falso.

Realidade Virtuosa

Para outros, como Pierre Levy, mais recentemente, e Dante Alighieri, há 700 anos, a imagem, o virtual, não é irreal, e sim outra realidade, a realidade das realizações ideais e especulativas, é o espaço da virtude e do futuro, não podada pelo possível, o atual e o existente.
A fotografia é real também enquanto experiência. Imagine uma foto tirada em uma festa na qual você esteve, ao ver a foto, você lembrará do que realmente viveu naquele dia. Mais ainda é a possibilidade de você se lembrar das coisas boas. Quando você quer lembrar de algo, busca uma fotografia que te lembre daquilo, mas lembre positivamente ou negativamente, conforme você quiser. A fotografia então liga o passado e o presente, concretizando um sentimento real.

Virtureal

Outros ainda, como Cervantes, na Espanha do século XVII, através de seu célebre Dom Quixote, ou para Mario Perniola, recentemente, não separam real e virtual. Afinal, pensemos em diferentes relatos de pessoas que presenciaram um mesmo acontecimento. Todas falam a verdade, o que viram, mas contam coisas diferentes. Qual é a versão real? Todas ou nenhuma? Para alguns, a realidade existe, mas quem tem percepção suficiente para captá-la?
Quando vemos algo, vemos através de nossos “filtros”, nossa cultura, preconceitos, nosso treinamento visual, nossas intenções e expectativas. O que vemos é o real, filtrado e selecionado por nós mesmos. Então uma fotografia, que seria a luz real existente em um momento, tratada por uma máquina, operada por um especialista, que além de conhecer a máquina também tem intenções estético-artísticas, comerciais ou até políticas, além dos mesmos filtros de qualquer pessoa. Assim, essa foto é tão real quanto qualquer outra visão, se pensarmos que ela carrega apenas resquícios da “realidade ideal”.
Mas podemos até pensar que não há real, pois tudo é apenas uma interpretação. De qualquer forma tanto o que vemos quanto uma fotografia, são um tão real quanto o outro.
Ao pensar em virtureal, é inevitável pensar no Second Life, onde podemos viver uma segunda vida dentro do virtual, que para muitos é tão real quanto à vida física, já que as experiências vividas lá podem afetar nossos sentidos.

Devemos opor real e virtual?

A questão é, ao observar uma fotografia, devemos confrontá-la com o real? Mas afinal, o que é o real? Pergunte a duas pessoas diferentes, que estiveram no mesmo evento, como foi esse evento, e você poderá ter relatos totalmente diferentes. Eles estão mentindo? Claro que não, mas eles viram coisas diferentes. Qual é a realidade? As duas. Ou nenhuma. Se pensarmos que a realidade pode ser múltipla, os dois relatos são a realidade, mas então, uma imagem do evento, também é real, pois é a visão do fotógrafo através da máquina. Mas se considerarmos que o real, em sua essência é único e total, e assim inatingível, então a fotografia é tão real como qualquer outra coisa. Por isso cada um tem uma visão diferente, que é na verdade parcial, pois não temos capacidade de ter uma visão ampla o suficiente para ver a realidade, que é então apenas teórica.
Real ou irreal, uma imagem não é tão diferente do que vê nosso olho. Será que devemos comparar as duas coisas então? A fotografia atua sobre nossos sentidos e sentimentos, tanto como as experiências físicas.

E os fotógrafos, o que devem fazer?

A fotografia é totalmente real enquanto lembrança para os retratados, que a partir dela rememoram suas próprias lembranças daquele acontecido, que são também reais enquanto fato vivido a apreendido, e são também uma imagem artística para um espectador que não sabe nada sobre ela. Apenas seria falsa se ela se pretendesse registro do que de fato aconteceu. Os historiadores concordam, nada é registro que aconteceu, mas algo parcial, que deve ser analisado em sua complexidade.
Não devemos opor o real e o virtual, mas esse erro acontece sempre, com a maioria das pessoas. É preciso olhar uma imagem como imagem, não como recorte do real. A falta de cultura visual às vezes impede que as pessoas olhem uma foto como experiência visual, como interpretação plástica e mutável e como algo que transmite ideais e intenções.
A imagem é, na verdade, hiper-real, por ser a própria virtude, a possibilidade plena de beleza e de acontecimento. A foto pode ser o que quisermos (e pudermos fazer como artistas ou fotógrafos). A fotografia não passou pelo obstáculo do possível. Ela não é o possível, é o potencial, o virtuoso. A imagem pode ser o protótipo do real, mais plena do que qualquer outra coisa.
Não sejamos nem iconoclastas (os que repelem a imagem) nem iconófilos (os que adoram imagens), devemos entender a imagem por si mesma, com suas potências estéticas e sociais.
O fotógrafo não está apenas registrando imagens e acontecimentos, está transmitindo sua visão do mundo, consciente ou inconsciente, que começa a surgir desde a escolha de seu equipamento, até as leituras que ele faz e a cultura que adquire. E ele está também experimentando realidades paralelas, repletas de possibilidades e potencialidades. O fotógrafo deve então encarar seu ofício não apenas como documental, mas também como comunicativo, experimental e, claro, artístico. Deve ter consciência que as imagens fazem parte do mundo atual, a atuam sobre ele, criando conceitos e idéias, muitas vezes errôneas.

Conclusão

Na verdade não há uma conclusão sobre o que é a imagem, se é ou não real. Mas podemos sim concluir que devemos encará-las com mais crítica e consciência, para sabermos que podemos usá-las, mas que também podemos ser usados por elas, se não tivermos consciência de que são criações repletas de filtros e intenções. Conhecemos pessoas que acreditam em algo só porque viram uma foto, e outras que não acreditam em nenhuma imagem, acham todas falsas. Queremos evitar as duas atitudes.

Yuri Bittar
Designer / Fotógrafo / Historiador
http://www.yuribittar.com
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