
Não meus amigos, não estou falando de nenhum fotógrafo "mão-de-vaca",
e nem da situação da fotografia no Brasil. Este
título, na verdade, refere-se à atração
que grande parte dos fotógrafos, por todo o mundo, e mais
ainda por aqui, tem pelo tema social, mais precisamente pela miséria
e pelo sofrimento humano.
E é isso que quero discutir

Outro dia um amigo me mostrou as fotos que fez de um morador de rua, não me lembro bem da história, mas ele conversou com o sujeito, e descobriu uma pessoa inteligente e culta, por detrás daquela aparência suja. As fotos ficaram boas, mas o que ele aprendeu foi ainda melhor.
Imagine a cena, um jovem estudante, no início de seu curso
de fotografia, então seu professor manda os alunos para
a primeira saída fotográfica, cada um deveria fazer
fotos na rua, por conta própria.
E agora? O que ele faz? Ele vai andar ali por perto, e se depara
com a bela igreja da Consolação, com seu estilo
neo-gótico-semi-barroco. Aquelas abóbodas altas
e imponentes na entrada. Ele faz uma foto. Então percebe
que há vários mendigos por ali, e ele precisa de
algo mais em sua foto. Nada melhor do que o incrível contraste
entre a riqueza e a miséria não?
Então ele se aproxima de uma mulher, uma mendiga não muito velha, apesar de que é difícil imaginar sua idade, ele pergunta se ela faria um favor, de ficar em frente à igreja, para ele fazer uma foto, imediatamente ela pergunta "o que é que eu ganho ?". Aparentemente ela já era modelo profissional, então ele negocia e consegue a foto por um passe.
Esse jovem era eu (ainda sou) e essa foi minha primeira foto na rua. Para todos os efeitos eu a considero minha foto n.1.
E porque eu contei essa história toda? Para mostrar o que se passou na minha cabeça. Tirar foto de mendigos foi a primeira coisa que pensei, fazer fotos de miseráveis parece ser natural. Mas porque temos essa atração pelo que mais queremos distância?
Ninguém quer ser mendigo, mas que atire a primeira pedra o fotógrafo que nunca fotografou um!
Isso, a meu ver, é em parte influência da nossa cultura visual. Qual é o fotógrafo iniciante que não admira Sebastião Salgado. Eu adoro também o Newman Sucupira, que faz uma espécie de foto-glamour de pessoas simples do interior. Além disso, estamos acostumados a ver matérias na TV, sobre a miséria, mendigos, etc.
Acho ainda que a fotografia com temática social faz muito sentido no Brasil, devido a nossa situação de pobreza generalizada. Pega bem se preocupar e fazer fotos conscientes. Alguém que tem preocupação com a sociedade, se aprende fotografia, sai fotografando a miséria mesmo.
Sem falar que se andarmos pela cidade, para registrar a realidade,
não tem como fugir, eles estão lá ! Mesmo
que na maior parte do tempo algumas pessoas consigam ignorá-los,
por ser dolorosa sua visão, quando vamos fotografar a cidade,
abrimos os olhos e a mente, e nossa sensibilidade de fotógrafos
deixa passar mais que o normal, enxergamos coisas belas que nunca
havíamos percebido, mas também enxergamos a miséria,
bem nos olhos.
Esses dias recebi a "Câmera Viajante". Um projeto
muito legal, desenvolvido pelo pessoal da lista Fotobrasil, que é uma
câmera, compacta, que vai viajando e passando na mão
de vários fotógrafos, e cada um faz sua foto e envia
a câmera para o próximo. No final haverá uma
exposição com todas as fotos, feitas por pessoas
diferentes, em locais e até países diferentes, mas
com o mesmo equipamento. Aposto que vai haver muitas fotos de
miséria, a minha é uma delas!
Não sou contra fotografar a miséria, pelo contrário, e ainda acho que devemos fotografar e pensar muito mais sobre esse tema.
Então é isso que vou continuar perguntando nessa
coluna, se você já fotografou uma "composição
da realidade" hoje? Espero que comece logo!
Yuri Bittar
Designer / Fotógrafo / Historiador
http://www.yuribittar.com
http://www.2communication.com