Artigo de Yuri Bittar

A Fotografia de Casamentos como Afirmação Social

O casamento, incluindo a festa e a cerimônia, é um evento de auto-afirmação social muito importante, onde cada participante, dos convidados aos noivos, leva o que tem de melhor; a melhor roupa, o melhor cabelo, os melhores gestos e atitudes. Há a valorização do lado religioso e dos sentimentos, como o amor e o carinho. Enfim, num evento como este buscamos mostrar o nosso melhor lado. Por isso as fotografias do casamento são uma forma importante de afirmação social, uma busca de afirmação de ideais, valores e desejos. É nesse contexto que podemos ver a fotografia mostrando seu lado de instrumento de afirmação social. Ter um fotógrafo no evento já significa que este é um evento digno de ser registrado, já é uma afirmação de valor, e quanto melhor o registro, mais importante são as pessoas fotografadas.

É importante lembrar que a fotografia não mostra a realidade, apenas parte dela, é uma visão selecionada, a realidade desejada, aspirada.
Queremos que as fotos mostrem a realidade como gostaríamos que fosse, ou como nos vemos, e não como é de fato.

É claro que existem diferentes tipos de fotografia para diferentes gostos.
Existe a fotografia tradicional, a espontânea, etc. Isso demonstra que
existem diferentes visões de como deve ser o registro de um momento
especial. Para alguns, esse registro deve ser tradicional, técnico, claro,
ou seja, algo facilmente reconhecível como simples registro. Outros preferem o diferente, o exclusivo e personalizado, enfim, o artístico e espontâneo, numa preocupação com o registro das emoções. Poderíamos ter aí fotos em preto-e-branco, borradas, menos nítidas e granuladas, como recursos para a transmissão de idéias. As duas formas de se fotografar podem representar, para quem vê a foto, sofisticação e bom gosto.

Essas duas diferentes direções podem se misturar em diferentes escalas, não sendo nunca uma melhor que a outra, assim como as pessoas, que são tão diferentes mas igualmente importantes, para si mesmas e para seus
convidados. Representam apenas duas formas diferentes de buscar uma
afirmação social, de marcar seu lugar dentro do grupo social. São diferentes
os aspectos a serem ressaltados, mostrando diferentes visões de mundo e
diferentes posições com relação à sociedade e à cultura.
Assim são as pessoas, buscando diferentes formas de se colocar diante a
vida, e assim é a fotografia, usada como meio de afirmar personalidades ou
buscar novos valores.

Até meados do século XX, por volta das décadas de 50 e 60, não havia a
cobertura do casamento, isto é, o fotógrafo não acompanhava o casamento.
Os noivos tinham de ir ao estúdio para tirar uma ou duas fotos. Claro que se tratava de uma foto muito caprichada, com muitos simbolismos e repleta de valor intrínseco, de modo a passar uma mensagem social, como a definição do nível social do casal, ou pelo menos do que eles queriam mostrar. O cenário era ultra caprichado, onde cada detalhe, como roupas e cenários, tinha uma enorme importância para poder passar a mensagem correta.

Já hoje em dia o casamento é uma espécie de momento máximo do casal,
enquanto parte de uma parcela da sociedade. É o dia em que noiva e noivo são as estrelas, as pessoas mais importantes para toda sua família, seus amigos, vizinhos e colegas de trabalho. Se um dos ideais da sociedade moderna é que cada uns tenha seus 15 minutos de fama, como profetizou Andy Warhol, o casamento é uma oportunidade de uma pessoa comum ter até algumas horas de destaque, sendo filmado e fotografado como uma grande estrela de cinema na entrada de uma noite de premiações.

A fotografia social em geral, incluindo a de casamentos, não é, portanto, um
registro da realidade, mas um registro das aspirações do retratado e da
visão do fotógrafo. Afinal, o que se busca é fotografar o melhor das pessoas, não o normal. O álbum de casamento é, antes de um registro dos
acontecimentos, um registro de sonhos e desejos, afirmação das aspirações
que esperamos ver realizadas. Pelas fotografias de casamento de qualquer
época ou lugar podemos “ler” os desejos e aspirações das pessoas que formam a sociedade representada.

Yuri Bittar
Designer / Fotógrafo / Historiador
http://www.yuribittar.com
http://www.2communication.com