
Segundo Boris Kossoy (2001, p. 18),
(...) desde o seu surgimento e ao longo de sua trajetória, até os nossos dias, a fotografia tem sido aceita e utilizada como prova definitiva, testemunho da verdade do fato ou dos fatos. Graças a sua natureza fisicoquímica e hoje eletrônica de registrar aspectos (selecionados) do real, tal como estes fatos se parecem, a fotografia ganhou elevado status de credibilidade.(...)
As fotografias são possibilidades de perpetuar uma fração do mundo no tempo e no espaço, construindo o que chamamos de memória sócio-histórico-cultural da humanidade.
Para o cidadão comum a fotografia é lazer, uma forma de poder registrar o nascimento de seu filho, a reunião com os amigos, uma viagem de férias, sua casa e seu trabalho.
Cada família constrói, através da fotografia, uma crônica de si mesma, uma série portátil de imagens que testemunha a sua coesão. Sejam quais forem as atividades fotografadas o que importa é que as fotografias sejam tiradas e conservadas com carinho. (Susan Sontag, 1986, p. 18).
Reveladora de detalhes e com o poder de resumir fatos, acontecimentos e produtos, encontra-se presente em todos os segmentos de comunicação, é de extrema importância para a sociedade e a indústria moderna que, na era da informatização, não sobreviveriam sem a reprodução visual.
Uma fotografia não é apenas o resultado de um encontro entre o fotógrafo e um acontecimento; fotografar é em si mesmo um acontecimento, cada vez com mais direitos: o de interferir, ocupar ou ignorar tudo o que se passa à sua volta. (...) em situações em que o fotógrafo pode optar entre uma fotografia e uma vida, decidir-se pela fotografia. Quem intervém não pode registrar; quem registra não pode intervir.(...) (Susan Sontag, 1986, p. 20-21).
A fotografia é uma linguagem técnica e subjetiva. “Na imagem fotográfica encontram-se, indissociavelmente incorporados, componentes de ordem material que são os recursos técnicos, químicos ou eletrônicos, indispensáveis para a materialização da fotografia, e os de ordem imaterial, que são os mentais e os culturais”.(Boris Kossoy, 2002, p. 27).
Com o advento do processamento digital na fotografia, nas últimas décadas do século XX e início do século XXI, novas e polêmicas transformações ocorreram na forma de captação, ajustamento e conversão da imagem.
Segundo Arlindo Machado, doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP e professor do Departamento de Cinema, Rádio e Televisão da Universidade de São Paulo, essas inúmeras transformações:
Têm causado um significativo impacto sobre o conceito tradicional de fotografia, e que se torna cada vez mais difícil saber o que é ainda especificamente foto-grafia, ou seja, registro sobre uma película revestida quimicamente e o que é, por outro lado, metamorfose, ou seja, conversão dos grãos fotoquímicos em unidades de cor e brilho, matematicamente controláveis, às quais damos o nome de pixels.
A tecnologia nos envia a outros aspectos conceituais da fotografia, levando-nos a repensar a sua própria identidade cultural com base no caráter de transmissora de informações, conhecimentos e memória.
A necessidade de comprovar a realidade e de engrandecer a experiência através das fotografias é uma forma de consumismo estético a que todos nos entregamos. As sociedades industriais transformam os seus cidadãos em viciados de imagens; trata-se da mais irresistível forma de poluição mental. (...) Mallarmé, o lógico dos estetas do século XIX, disse que tudo o que existe no mundo existe para vir acabar num livro. Hoje em dia, tudo o que existe, existe para vir a acabar numa fotografia. (Susan Sontag,1986, p. 31-32).
Os componentes da linguagem fotográfica nos remetem ao que podemos chamar processamento e “impacto social” da imagem fotográfica; escolher um determinado ângulo nos possibilita uma interpretação.
Os elementos formadores da imagem são a câmara fotográfica e o filme fotográfico ou o cartão digital, controlado por dispositivos técnicos que incluem as objetivas, responsáveis pelo foco, profundidade de campo e ângulo de inclusão da imagem.
A objetiva possui um mecanismo, chamado diafragma, que regula o tamanho de abertura das lentes, pela qual passará a luz, formando a imagem ao tocar o material fotossensível ou um sensor eletrônico para as câmeras digitais; a velocidade dessa abertura é controlada pelo obturador, ou seja, esse dispositivo regula a duração de exposição desse material à luz.
A distância focal das lentes determinará o ângulo que a fotografia irá tomar, por exemplo, quanto maior a distância focal menor o ângulo de cobertura quanto ao objeto a ser fotografado e vice-versa.
O fotômetro medirá a quantidade de luz que chega ao filme que, na dependência da regulagem, produzirá uma imagem superexposta, subexposta ou exposta corretamente, e o flash, que tem como função preencher a ausência de luz em uma cena a ser fotografada.
O conteúdo estético da fotografia é de extrema importância e seus elementos enaltecem a criação, a interpretação e a apreensão do emissor e do receptor da imagem fotográfica, gerando diversas leituras (...) “de qualquer modo, há tantas leituras de uma mesma face.” (...) (Roland Barthes, 1984, p. 28).
No ato solitário de produzir uma fotografia valorizamos o objeto, o grupo ou figura individual, provocando sensações e reflexões; trabalha-se o corte e o enquadramento junto à perspectiva, com liberdade para desfocar a forma, focando e congelando o movimento, escolhendo o ângulo, contrastando as cores ou compondo; na sua ausência, cria-se outro balanço.
Podemos gerar a idéia de tato texturizando, obter um ambiente dramático, de sonho, medo, fantasia, sedução e sombra, brincando com a luz.
A aberração também faz parte dessa construção, podendo nos levar ao que chamamos de abstrato e surreal na fotografia.
Uma fotografia se faz não somente de técnica, mas de todo o aparelhamento cultural e subjetivo do emissor; dessa forma, realiza-se também a leitura do seu discurso.
Em sua obra “Fotografia e Antropologia”, Rosane de Andrade (2002, p. 106) traduz o que a fotografia significava para Pierre Verger:
A fotografia permite ver o que não se tem tempo de ver, pois ela fixa. E ainda memoriza, é memória. O milagre é que esta emoção sentida diante de uma fotografia muda, testemunho de um fato fixado por um instantâneo, possa ser sentida por outras pessoas, revelando um fundo comum de sensibilidade, muitas vezes não expressa, mas reveladora de sentimentos profundos quase sempre ignorados.
A fotografia é uma impressão gráfica e virtual que nos transporta ao ato de comunicar e fotografar. Para Susan Sontag (1933-2004) (1986, p. 14) (...), “é apropriarmo-nos da coisa fotografada. Significa envolvermo-nos numa certa relação com o mundo, que se assemelha ao conhecimento e, por isso, ao poder”.(...).
Texto desenvolvido para o trabalho de graduação no Curso de Comunicação Social do Centro Universitário Moura Lacerda sob o titulo: “O Retrato Fotográfico: Representações” com orientação do Professor Caio Aguilar Fernandes.
Fotógrafa e Graduada no Curso de Comunicação Social do Centro Universitário Moura Lacerda.
Con_Vieira@yahoo.com.br
Fotossensibilidade é um fenômeno que significa, literalmente, sensibilidade à luz.