ÍCONE DA FOTOGRAFIA DE NITERÓI
LÍVIO CAMPOS
O PAPARAZZI DE NITERÓI
A garra de Robert Capa, a pungência das imagens de um Cartier-Bresson e
muita coragem, fizeram de Livio Campos um dos melhores
repórteres-fotográficos do Brasil. Preciso nos flagrantes que ilustraram as páginas de jornais como Última
Hora, Diário de Notícias, O Fluminense, O Povo de Niterói e o Estado,
entre outros.
Seu lema sempre foi: "Primeiro fotografe, depois pergunte o que esta
acontecendo”.
Três fatos muito importantes e marcantes em sua carreira de
repórter-fotográfico aconteceram em Niterói, no final dos anos 50.
Manifestação Estudantil
A manifestação descia a Avenida Amaral Peixoto, com gritos de ordem:
"estudantes unidos jamais serão vencidos". Quando, de repente, começou a
pancadaria entre estudantes, polícia militar e populares. Era pau e pedra
para todos os lados, ninguém se entendia. Os policiais, como sempre, não
escolhiam cara para bater.
E foi ai que Lívio entrou em ação com sua famosa câmera Rolleiflex-6x6,
fotografando tudo que via pela frente.
Quando menos se esperava, eis que surge um policial militar, de estatura
avantajada, que em seguida arranca-lhe a câmera da mão, jogando-a ao chão.
Proferindo impropérios e completamente descontrolado, o policial começa a
pisar no equipamento quebrando-o.
Lívio, sem perder a cabeça (já tinha perdido a máquina), afasta-se uns
três metros com um sorriso nos lábios, e saca do bolso do paletó uma
câmera 35mm e começa a registrar tudo de novo, o que lhe rendeu uma bela
primeira página no jornal Última Hora. "Perdi a câmera, mas não poderia
perder a foto", comentava com alguns amigos e admiradores, numa banca de
jornal na esquina da Rua da Conceição.
Assassinato do Desembargador
O maior furo de reportagem de Lívio Campos foi o assassinato do
desembargador Toledo Pizza, em seu gabinete, no Fórum de Niterói.
Por se tratar de uma pessoa ilustre, todo o fórum foi evacuado e as portas
e janelas trancadas. Nada de imprensa ou curiosos. Foram tomadas todas as
providências até a chegada das autoridades competentes.
Mas para Lívio não havia portas fechadas. Combinou com seu colega e sócio
em um estúdio e laboratório fotográfico em Niterói, para que o colega
desse a volta no fórum e lhe passasse a máquina por uma das janelas, pois
ele estaria aguardando.
Na porta do fórum estavam os policias montando guarda. Lívio, além de
fotografo, era funcionário da Secretaria Estadual de Segurança, e ao
chegar ao fórum usou sua carteira funcional e seus conhecimentos,
conseguindo entrar no recinto. Imediatamente dirigiu-se até a janela
combinada, abrindo-a para pegar a máquina. Pronto. A partir daí fez as
fotos do local do crime. Trabalho executado devolveu a câmera ao
sócio, que o aguardava do lado fora. No entanto, ao pegar o
equipamento e se dirigir ao laboratório para revelar o filme e copiar
as fotos com a intenção de comercializá-las para vários jornais de
Niterói e algumas sucursais dos jornais do Rio de Janeiro o sócio
descobriu que a câmera não tinha filme.
É que Lívio Campos tinha uma profunda relação de fidelidade com o
jornal Última Hora, onde trabalhava como fotógrafo da sucursal em
Niterói, para quem passou os filmes e acabou tendo o trabalho publicado
com exclusividade. Mais um furo de reportagem de Lívio Campos.
Depois disso, o sócio aprendeu que não pode dar mole para um
profissional que vive de furo e de exclusividade. Só lhe restou
desfazer a sociedade.
Quebra-quebra na Estação das Barcas
A manhã de 22 de maio de 1959 marcou definitivamente minha vida
profissional.
Presenciei uma confusão da sacada de um bar, em frente à Estação das
Barcas. Não conseguia tirar os olhos de um fotógrafo, que registrava tudo e
que mais tarde conheci e tornando-me seu amigo e fã.
A multidão ia se formando quando, de repente, chegou um jipe com uma
guarnição de fuzileiros navais fortemente armados, portando
carabinas, fuzis e metralhadoras, decididos manter a ordem no local.
Mas o tiro saiu pela culatra, pois ao contrário do que se esperava,
a multidão enfrentou os soldados, com tanta fúria que a Praça
Araribóia mais parecia um cenário de filme de guerra hollyoodiano.
Não faltaram tiros, fogo, pedradas, gente feridos, mortos e muito·sangue espalhados pela praça. Este cenário de "guerra", se desfez
inesperadamente, sem nenhuma explicação, quando, como se obedecessem
a uma ordem, os fuzileiros bateram em retirada, em uma lancha que os
socorreu, pois o jipe que eles ocupavam encontrava-se em chamas.
Nem a chegada dos bombeiros conseguiu acalmar a fúria da multidão, que
chegou a cortar as mangueiras para que não apagassem o fogo, que àquela
altura já tinha tomado conta de todo o prédio da Estação das Barcas.
No meio disto tudo lá estava aquele fotógrafo com a sua câmera em punho,
registrando tudo com extrema coragem, como se tivesse algo a protegê-lo.
Foi assim que descobri este grande profissional, conhecido pelo nome LÍVIO
CAMPOS.
Registro feito e de posse de vários rolos de filmes em suas mãos, não
tinha como enviá-los ao jornal Última Hora, no Rio de Janeiro. Naquela época as sucursais dos jornais ainda não possuíam aparelhos de
telefotos e a comunicação era feita por telefone ou via contínuo e o único meio de transporte para o Rio, justamente as barcas e barcaças
estavam paralisadas e suas estações em chamas. A única chance dos
filmes chegarem à redação seria enviar o material pela Niterói-Rio,
via Magé, de carro ou ônibus, mas naquele momento Niterói
encontrava-as ilhada e sem comunicação com o resto do mundo.
Só lhe restou uma alternativa: foi até a Ponta da Areia e lá chegando, com muito custo, conseguiu alugar um barco a remo. Conseguindo atravessar a Bahia da Guanabara. Todo esforço foi
compensado no dia seguinte com a edição especial de seu jornal, com
suas fotos da primeira a última página, e ainda com sua própria
narrativa.
Além destes fatos importantes na carreira de Lívio Campos outros
acontecimentos também foram marcantes, como o incêndio do Circo
Americano, em Niterói, quando morreram mais de 300 pessoas, a
cobertura dos grileiros de Cachoeiras de Macacu e, finalmente, o
sepultamento do governador Roberto da Silveira, seu amigo
particular.
Só isto já bastaria para colocá-lo no panteon dos grandes nomes da
fotografia. Mas Lívio tornou-se igualmente influente pela sua
faceta de bom orador (coisa rara entre fotógrafos), a ponto de
representar o governador Roberto da Silveira em alguns eventos,
quando este não podia comparecer.
Do Rio Grande do Sul para Niterói
LÍVIO CAMPOS nasceu na cidade de Uruguaiana, Rio Grande do Sul, fronteira
com Uruguai, em 1932. Veio para o Rio de Janeiro, com a intenção de
seguir a carreira militar. Ingressou na Escola de Fuzileiros Navais,
onde aprendeu a fotografar. Ao sofrer um acidente encerrou a carreira
militar, mas descobre sua verdadeira vocação: o fotojornalismo.
Morou em Niterói até 1962, quando se transferiu com a família para a
cidade de Macaé, no interior do Estado do Rio de Janeiro.
Lá chegando com a família continuou como correspondente do jornal Última Hora, mantendo também um estúdio e laboratório fotográfico em
uma pequena loja que comercializava fotografias, filmes e outros
produtos do ramo, além de artesanato da região.
Mas um belo dia parece que despertando de um sonho, lembrou-se que
ainda não estava aposentado e que aquela não era a vida que queria.
Lívio passa a administração da loja para a esposa e os filhos maiores
e volta a fotografar.
Em 1964 viveu o pior momento de sua vida, ao fazer uma série de
reportagens e denúncias que envolviam o prefeito da cidade, que
mandara despejar de suas moradias, em dia de muita chuva, famílias
que não tinham onde se abrigar.
Esta reportagem quase lhe tira a vida, pois foi vítima de um
atentado à bala, quando levou seis tiros e ficou hospitalizado por
muitos dias entre a vida e morte. Recuperado, passou o resto de sua
vida angustiado e cansado de tentar consertar a desigualdade social
que assola este país.
Lívio Campos faleceu em 1974, deixando viúva e cinco filhos: Luiz
Cláudio, João Carlos, Lívio Campos Jr, Rosana e Romulo Campos. Dos
filhos homens, todos são excelentes fotógrafos, em áreas diferentes.
Do seu riquíssimo acervo fotográfico, parte ficou perdido em Niterói,
e outra parte uma enchente que arrasou a cidade de Macaé, na década de
80, inundou seu estúdio, destruindo totalmente o seu valioso acervo
contendo parte significativa da história do Estado do Rio.
O legado de Lívio Campos - suas fotografias - não mais existem, a
não ser em nossa memória, mas sua história pessoal, certamente se
confunde com o período em que o fotojornalismo começou a ser
valorizado.
Artigo de Zalmir Gonçalves
Fotógrafo