Artigo de Ely Vieitez Lisboa

Imagem & Literatura

Dia treze de maio fui visitar a XIV Bienal de Arte Fotográfica, na Casa da Cultura. Acervo rico, tendências artísticas várias, fotos notáveis, outras mais ingênuas e comuns. Meio leiga, examinei-as, não levando em conta a técnica fotográfica, mas o enfoque da estética e da
criatividade. Basta um mínimo de sensibilidade para se reconhecer um trabalho com nuances e originalidade. Ao final, ficou a admiração pela boa qualidade da exposição e (como é muito habitual em julgamentos...) a sensação de estranheza diante da classificação discutível dos primeiros lugares e das menções honrosas.

Saindo do térreo, chega-se ao MIS (Museu da Imagem e do Som), que se encontra, hoje, instalado, precariamente, no primeiro andar. Lá esteve, aberta ao público, de sete a vinte e cinco de maio, a exposição "Ícones da Fotografia", organizada pelos Amigos da Fotografia de Ribeirão Preto.

Ora, sabe-se que fotos, charges, peças teatrais, filmes, todos são textos que podem ser interpretados como se fossem escritos. A interpretação é denotativa e/ou conotativa. A primeira analisa traços, figuras, gestos, passagens; a segunda interpreta símbolos, analogias, os porquês da escolhas dos elementos exatos. Quando a foto é acompanhada de um texto escrito, é necessário detectar a pertinência do texto que ilustra a imagem. Pode-se afirmar ao contrário: há que se enfatizar se a imagem harmoniza-se com o texto. Quando isso se dá, acontece a arte verdadeira, a beleza estética e literária. É uma união feliz, uma concretização da beleza, um hino ao bom gosto.

É o que aconteceu na iniciativa expressiva "Ícones da  Fotografia", fotos de temáticas variadas, com textos de Antônio Carlos Tórtoro, presidente da Academia Ribeirãopretana de Letras. Realce-se a quase cumplicidade da imagem e palavra ou vice-versa, em "Palavra", de Sebastião Leme; "Palácio Rio Branco" e "Trabalhador Rural", fotos de Carlos Natal e a beleza das fotos "Aviforme" e "Templo", de Francisco Amêndola. Os citados trabalhos ganharam realce com os textos de Antônio Carlos Tórtoro; pode-se também afirmar, com certeza, o contrário: as fotos primorosas valorizaram os textos literários. Chamou-me a atenção a foto "Templo" e o poema herético e polêmico de Tórtoro:

A fachada do templo não acolhe;

                                    espanta qualquer cristão.

                                    Bocarras arreganhadas

                                    ameaçam santos e ateus.

                                    Os múltiplos olhos das janelas

                                    desviam o foco da visão:

                                    Procuram por Deus.


         
   Ou, foto e texto de "Trabalhador Rural":

                                    A procissão é lenta.

                                    Momento sempre de luto.

                                    O passo é resoluto

                                    na volta à casa, do bóia-fria.

                                    É longa a silenciosa caminhada

                                    rumo ao nada,

                                    ao final de cada dia.

O homem, animal gregário, vive em sociedade, é preso a dezenas de grilhões e proibições cerceadoras, que o controlam e deprimem. Uma das raras vias de libertação é a Arte. Ela dá lições excelsas aos seres humanos. Esse trabalho conjunto de imagem e literatura, foto e texto é uma metáfora rica de união. Acrescente-se ao binômio, música e dança, e conseguir-se-á, talvez, não uma panacéia para todos os males, mas um antídoto eficaz contra a solidão, o tédio, o ceticismo, enfim, algo mágico que abre veredas para a reconquista do Éden Perdido.

(*) Ely Vieitez Lisboa: escritora, pertence à ARL e à UBE