Artigo de Zalmir Gonçalves

A foto digital começou em Niterói! uma estória, uma lenda, um fato ou uma brincadeira?

Morava em Niterói (nos anos 60 ainda capital do Estado do Rio de Janeiro), um fotógrafo chamado Délio Limoeiro, segundo ele de nacionalidade uruguaia, naturalizado brasileiro.

Fotógrafo da melhor qualidade, muito criativo, de uma técnica inigualável, tanto para fotografar quanto nos laboratórios P&B, onde conseguiu a proeza de elaborar as montagens fotográficas mais exóticas e engraçadas, e até mesmo comprometedoras, como por exemplo a cara de um político famoso no corpo de uma mulher de biquíni.

Justamente por ser um tipo gozador e brincalhão, nunca ligou para o fato que ocorreu no seu estúdio e laboratório fotográfico, de que sem querer estava lançando a maior invenção tecnológica na fotografia, que é a digital.

Um belo dia estávamos eu e outros colegas conversando com o Délio quando entrou um senhor em seu estúdio – não sei se podíamos chamar de estúdio, uma sala dividida ao meio onde, de um lado ficava o laboratório e do outro o que ele dizia ser o estúdio, uma poltrona velha, suja, esburacada e mal cheirosa, caixa de papelão, jornais e revistas velhas, garrafas de cachaça vazias aos montes etc.

Este senhor dizia-se diretor de um estaleiro que estava sendo montado em Niterói, lá pelas bandas da Ponta d’Areia e viera ali para contratar os serviços profissionais do Délio, porque dentro de poucos dias iriam chegar mais de cem operários, técnicos e engenheiros para trabalhar na nova empresa. Portanto, precisava que os funcionários fossem fotografados para confecção de crachás e fichários, com fotos 3x4.

Délio topou na hora, pois ali estava o maior filão para que ele ganhasse uma boa grana!

Fechado o contrato, logo no dia seguinte chegou a primeira leva de “japonas” no “estúdio” do Délio. E assim foi acontecendo dia após dia, até que numa bela manhã bate à sua porta um japonês, sozinho, que se apresentou como Titako no Bond, pegando o Délio desprevenido, pois ainda era cedo e não tinha filme para recomeçar o serviço nem dinheiro para comprá-lo.

Mas, como falei no princípio desta estória, o Délio era muito criativo e, olhando para a cara do Titako no Bond, reparou que os japoneses eram todos iguais, ou melhor, tinham todos as mesmas caras, as mesmas aparências (pareciam gêmeos).

Délio não perdeu tempo e mandou o japona entrar, e em seguida foi fotografando, mesmo sem filme na máquina pedindo, em seguida, que ele aguardasse um pouco para já levar suas fotos prontinhas.

Este “golpe” Délio já tinha bolado e combinado com seu irmão, Dalmo, que era seu laboratorista.

O “golpe” era o seguinte: ligando a máquina – uma Roleiflex 6x6 – a um cabo que se estendia até o laboratório, fingia estar ligado ao ampliador. Passados 5 minutos, Délio pediu ao irmão as fotos do Titako no Bond.

De posse das fotos, o nipônico fez uma cara de espanto arregalando os olhos e, em seguida devolveu-as, reclamando que aquelas fotos não eram dele pois que ali a pessoa estava com gravata borboleta e ele, o Titako, não! Devolveu-as então informando que voltaria no dia seguinte para pegar as suas fotos verdadeiras.

Mais uma vez Délio, sem perder a esportiva, mandou que ele esperasse mais um minuto para retirar a gravata da foto e, passados alguns minutos, voltava o Délio com as fotos, sendo que desta vez sem a gravatinha borboleta.

Outro susto no nipônico que, maravilhado perguntava ao Délio “como digi ixu tão lapido, né?” ao que o Délio parou, pensou rapidamente e lhe respondeu “digi...tal, né?”

E lá foi Titako pelas ruas de Niterói falando sozinho: “futulo digital, né?... futulo, digital né?”. Pegou uma barca Niterói-Rio e, na praça XV pegou um táxi pedindo ao motorista que o levasse ao aeroporto internacional do Galeão (hoje, Antonio Carlos Jobim). Lá chegando partiu no primeiro vôo para sua terra, o Japão.

Ao desembarcar em Tóquio, onde uma comitiva o aguardava curiosa para saber as novas tecnologias dos estaleiros brasileiros, veio a surpresa para todos quando Titako começou a contar a grande revelação - que de navios os brasileiros estavam por fora e muito atrasados tecnologicamente, mas tinha uma novidade que ele descobriu com um fotógrafo brasileiro em Niterói: uma técnica de fotografar sem filmes e que eles, japoneses, poderiam facilmente desenvolver para o futuro. Esta nova técnica chamava-se “digital”.

Moral da estória: Délio, acostumado a levar tudo na gozação e brincadeiras, não se ligou no nome do nipônico “Titako no Bond”, ou seja, um espião que teria se infiltrado entre os que estavam vindo para trabalhar no novo estaleiro de Niterói.

O que faria Délio Limoeiro hoje, se vivo fosse?

Confirmaria esta estória? Admitiria sua grande falha ao entregar o ouro ao bandido, digo espião? Ou iria para a justiça cobrar dos japoneses os direitos sobre sua invenção?

Pelo que eu conhecia do Délio, tenho certeza ele estaria nas esquinas das ruas de Niterói, contando para todos, às gargalhadas, que fotografou um japonês sem filme e que ele acreditou que as fotos que levou eram realmente as suas e não de um conterrâneo seu, mal sabendo que “como se digi tal lapido, né?” virou foi mesmo DIGITAL.

Artigo de Zalmir Gonçalves:

Zalmir nasceu em Niterói, Estado do Rio, em maio de 1938 e iniciou sua carreira como repórter fotográfico em 1960 na revista Atualidade, passando pelos jornais O Fluminense, O Dia e O Globo.

Atuando desde 1997 na realização de trabalhos fotográficos junto às obras de restauração realizadas pela Prefeitura Municipal de Niterói (Solar do Jambeiro, Palácio Araribóia, Igreja São Lourenço dos Índios e Ilha da Boa Viagem), coordenados pela FAN-Fundação de Artes de Niterói.
Idealizador e primeiro presidente da Sociedade Gonçalense de Fotografia, no município de São Gonçalo/RJ, Zalmir hoje é também Diretor de Fotografia do Museu da Imprensa Brasileiro, em Niterói/RJ, inaugurado em 2001, único do gênero no país.