Artigo de Luiz Ferreira

Falando sobre fotografia

Estava navegando pela Internet quando me deparei com um texto de título poético: "As manhãs pequenas", da artista plástica Maria Helena Bernardes. Neste texto Maria Helena, entre outras coisas, falava sobre "uma geração de fotógrafos que saiu às ruas para investigar lugares e extratos humanos pouco visíveis na arte e na cidade. Precedidos pelo pioneirismo de Atget, artistas da chamada nova objetividade - corrente surgida no entre-guerras europeu e nos anos da Grande Depressão norte-americana - partiram em busca da 'significância das coisas ordinárias', segundo as palavras do fotógrafo Walker Evans".

Sou fã de Walker Evans - digo isso sem a pretensão de soar original, acho que todo mundo que gosta de fotografia também é -, e o menciono para falar da frase citada por Maria Helena em seu texto: "busca da significância das coisas ordinárias". Essa frase me fez "viajar" em seus significados e interpretações, porque traduz muito do ato fotográfico: a releitura do cotidiano, sua transcrição em uma imagem, a busca do significado de tudo o que há e de tudo o que está ausente no nosso mundo diário. Penso que muitas vezes somos incapazes de notar o que há de ausência no nosso cotidiano. A ausência é insinuante, preenche lacunas, ocupa espaços, é capaz de cegar. Nos limitarmos a ver o que se apresenta a nós, é um imenso desperdício. Exercitar o olhar para ver além e aquém do nosso dia-a-dia, nos enriquece. Nos faz intensificar esta relação espaço e tempo, que alguns chamam vida. E isso não é privilégio de fotógrafos, artistas plásticos e afins. Procurar ver, e não somente olhar; interagir, e não somente testemunhar; participar, no sentido de fazer parte do cotidiano, é a melhor maneira de se buscar o significado escondido atrás das coisas ordinárias.

Um ano novo nos move em intenções de comportamentos novos. Paradoxalmente, é uma tradição o que nos motiva a planejar fazer tudo diferente todo ano novo. Mas podemos aproveitar esta vontade genuína de mudar nosso comportamento e, como os fotógrafos da chamada nova objetividade, buscarmos a "significância das coisas ordinárias".

Este texto foi publicado na coluna "Falando de Fotografia", da revista Atelier, n º 89, de fevereiro de 2005.

Luiz Ferreira é jornalista, fotógrafo "free-lancer",
criador e editor da revista "Espaço Photo",
colunista da revista "Atelier - Guia de Artes Plásticas"
e Diretor de Comunicação da ABAF
e_mail: espacophoto@terra.com.br