Artigo de Walter Brugger
Novos Caminhos da Fotografia. Por que PHOTOSHOP! ?

Iniciei como a maioria “batendo” fotografias pelo prazer de colecionar lembranças.
Em 1936 eu tinha 11 anos e aqui, na serra gaúcha, ter uma “máquina fotográfica” ainda era uma raridade, coisa de rico...
Na realidade a “máquina” era de minha mãe, austríaca, vienense e que a trouxera junto da europa.
Era uma Agfa de Foles, negativo seis por nove do qual se mandava, habitualmente, fazer cópias de contato.
Claro, tudo em preto e branco, ou sépia...
Em geral, papel brilhante e nos laboratórios mais sofisticados com papel texturizado fosco e margens serrilhadas.
Era o máximo!
Enfim, foi com ela que fiz meus primeiros registros sem sequer querer entender como é que aquilo funcionava.
Depois um dia aprendi, igualmente, a admirar aquele milagre da química moderna que conseguia registrar os comprimentos das ondas eletromagnéticas da luz e com isso reproduzir e eternizar o que acontecia à minha volta.
Aos poucos fui aprendendo com outros entusiastas o muito que se poderia fazer além de “bater” a fotografia como pura lembrança.
Abria-se um maravilhoso mundo criativo em que, mesmo não sabendo pintar, havia a possibilidade de apresentar imagens de sensibilidade artística.
Foi então, que em 1951, quando eu fazia minha pós-graduação médica na Universidade de Innsbruck, no Tirol, um colega introduziu-me às técnicas que o laboratório da universidade nos oferecia.
Quando eu me recordo destes tempos em que eu mesmo fazia as revelações de minhas fotografias, ainda sinto no nariz aquele cheiro.
Aqueles odores eram meio nauseantes. Era o “fedorzinho” típico dos materiais químicos do laboratório fotográfico.
Bacias com reveladores, interruptores, fixadores e de lavagem.
Luvas, esponja, relógio, timer, pinças, termômetro, queimadores e protetores, uma parafernália!
Ao lado do amplificador tudo aquilo ficava ordenado na seqüência em que deveria ser usado.
Na penumbra, após adaptar-se àquela iluminação da luz de segurança, observava-se o nascimento da nossa fotografia...
Lembro que passavamos horas e noites a fio no esforço entusiasmado em busca de uma fotografia que nos parecesse perfeita.
Escureciam-se partes claras e clareavam-se outras muito escuras.
Filtrávamos a luz com filtros coloridos em exposições múltiplas fracionadas.
Gastávamos uma folha de papel fotográfico atrás da outra até termos a reprodução que nos parecesse a melhor de todas!
Nessa busca a gente se tornava exigente, teimoso e sofredor.
Mas então, finalmente, lá estava aquele resultado maravilhoso!
Só que, infelizmente, aquilo era uma fotografia única.
Repetir uma cópia idêntica áquela era impossível.
É que aquele resultado final dependera, inclusive, de pequenos fatores imponderáveis e irreproduzíveis.
Naquela época fazer montagens fotográficas era com tesoura, bisturi, gillette e cola.
Havia que ocultar as pistas eventuais de, como aquilo havia sido feito.
Uma mão de obra absurda!
Tentavam-se igualmente novas imagens fotografando sanduíches de negativos ou diapositivos que vieram depois.
Fazíamos duplas exposições cujo resultado final era sempre pouco previsível.

Aqui mostro uma fotomontagem daquela época em que eu recortei a mulher nua, colei sobre a foto de uma entrada de cinema e refotografei o todo, ridicularizando o filme anunciado.

Título-“Gozo Alucinante”

 
 
 

Ainda existem, eu sei, muitas pessoas que entendem que só estas fotografias executadas quimicamente e no laboratório, são a verdadeira fotografia.
Mas muito rapidamente (!) Os tempos estão mudando cada vez mais...
Para mim o advento da digitalização e do manejo fotográfico, usando o Photoshop, (quando comecei onze anos atrás ainda era a versão 2.5 ) foi a minha declaração de independência da câmara escura.
Chegara à invenção da “câmera escura agora seca” e, paradoxalmente ao nome, exercitável em plena luz do dia.
Uma maravilha previsualizável no monitor do PC.
Logo após a digitalização das fotografias tradicionais houve outro evento revolucionário para a fotografia.
Aí estão as surpreendentes câmeras digitais com inúmeras, variáveis e progressivas qualificações.
E estas novas tecnologias já estão, amplamente, interligadas!
O fotógrafo amador ou profissional ainda esta descobrindo todo este novo potencial de manipulação que permite novos, incríveis e facilitados resultados da imagem fotográfica.
O fotoshop fornece um novo gigantesco e criativo estúdio de reprodução.
Com ele se faz retoques, separam-se cores, corrige-se a iluminação e até se pode alterar, a posteriori, a temperatura de cor da luz.
Basta que a captura do original, venha no formato "raw ou nef" (nikon electronic format) e o que era luz incandescente vira luz do dia.
Com o Photoshop tudo é possível.
Contraposto à câmera escura tradicional o Photoshop oferece muitas e fantásticas vantagens.
Destas, para mim, a maior é a possibilidade da exata reprodução dos resultados.
Por exemplo, atuando em planos (layers, canais e mascaras) os diversos passos do trabalho podem ser repetidos com direcionamento perfeito para clarear ou escurecer áreas pre-selecionadas.
Além de precisamente reproduzíveis os trabalhos fotográficos originais podem, mesmo anos depois, sofrer nova e criativa interpretação.
O arquivo eletrônico da fotografia digital ou da fotografia tradicional digitalizada por escaneamento não mofa, não arranha, e não sofre alterações com o passar do tempo.
O Photoshop é o programa de trabalho profissional que todos querem.
Ele oferece tudo o que um fotógrafo ambicioso almeja.
Profissional ou não qualquer um tem a sua disposição uma caixa de ferramentas básicas.
O que com elas podem ser feito depende tão somente dos conhecimentos e da habilidade de cada usuário.
Aqui esta a possibilidade de experimentação sem horizontes, mas que ao contrário da fotografia tradicional da câmara escura tem custo zero!
As criações não são destrutivas.
Não existem permanentes despesas com material.
Qualquer experiência é sempre reversível.
Não há limites para a imaginação!
Claro! Argumenta-se que o custo do computador e do Photoshop são elevados!
É verdade, e acrescem mesmo os permanentes ”up-grades” do programa.
Mas e quanto custava ou custaria hoje um bom laboratório fotográfico?
Por isso considero que existe uma relativa equivalência dos custos do investimento.
A compra do Photoshop, hoje já na versão oito CS (Creativ Studio), faz sentido também para aqueles que vêem a fotografia tão somente como um “hobby”.
O Photoshop nos abre um fantástico e inacreditável novo mundo no manejo criativo da imagem fotográfica.
Eu tinha setenta anos quando me iniciei no Photoshop e o meu entusiasmo por ele até hoje não arrefeceu.
Abaixo mostro alguns dos trabalhos que fiz com o Photoshop.
Seriam eles facilmente realizáveis na câmara escura?

 
 

 

Título-”Diabolo in Hell”

Fotografia convencional do crâneo.

A imagem escaneada é posta no PC. No Photoshop o crâneo é selecionado e saturado em vermelho (red do rbg).

Passa por uma distorção com um dos filtros " distort" e pelo "liquify".

Em uma camada adicional foi acrescentada a fotografia escaneada das chamas de uma fogueira.

Esta, igualmente com leve distorção, foi suavizada com o filtro “blur” e colocada como fundo fotográfico da imagem então fundida em uma só.

A ponta de uma chama duplicada criou os chifres do diabo.

 
 
 
     

 

Título- “Stop Polution”

A fotografia original foi feita com equipamento tradicional.

Lixo em cima de uma mesa e por baixo da mesa uma mão escurecida com pasta de sapatos no meio do lixo.

O fundo era a retro-projeção (sobre papel manteiga) de um slide com nuvens coloridas fotografadas com luz polarizada enquanto tinta fluorescente pingava e esvanecia na água de um aquário.

Dez anos depois esta fotografia original foi digitalizada.

O fundo da imagem distorcido e suavizado com um dos filtros “distort” e “ gaussian blur” do Photoshop criou a nova versão.

Com aparência de gazes venenosos na atmosfera a foto então mereceu utilização em artigo denunciador da poluição ambiental.

 

     
 
 
 

 

Título- “Looking Back”

Uma nova imagem foi criada a partir da digitalização de duas fotografias de minha pessoa em preto e branco de 1951.
São da época do meu estágio médico e aprendizado no laboratório fotográfico da Universidade em Innsbruck, Tirol, Áustria.
No Photoshop as duas imagens foram colocadas em camadas (layers) diferentes. A primeira foi trabalhada com o filtro “perspective tilling” (um plug in adicional do fotoshop). O “tilling” foi executado de tal forma que o terço superior da fotografia ficasse vazio, sem informação, transparente.
A segunda fotografia colocada em camada inferior à primeira foi solarizada no Photoshop e editada com o “free transform” para que olhasse para a imagem de baixo. Para realçar ainda mais a idéia de passado foi posteriormente selecionada uma pequena faixa na margem inferior da primeira e sobre esta seleção aplicado o filtro suavizador “gaussian blur”. Depois todas as camadas foram fundidas... E deu no que deu!

     
 
 
 

 

Título- “A Denúncia”

A fotomontagem foi criada simplesmente usando quatro velhas fotografias tradicionais digitalizadas por escaneamento.

1º - A paisagem de uma praia em Santa Catarina onde na oportunidade realmente estava aquela lata de Coca-Cola.
2º - O pingüim pai fotografado em um zoológico de Londres.
3º - O pingüim filhote.
4º - Uma cabine telefônica, modelo “orelhão”, em Caxias do Sul.

Os pingüins e o “orelhão” foram selecionados e relocalizados sobre a praia.
Sobrepostas em camadas do Photoshop à única manipulação adicional foi o redimensionamento do tamanho das três últimas para haver alguma proporcionalidade.
Para tal usei o “transform scale” que se oferece na coluna “edit” do Photoshop.
Ainda coloquei um efeito de estrela no canto superior da cabine.
“Layers” fundidos ficou pronta a “denúncia” do pingüim...

     
 
 
 

 

Título-“A onda sonora dos violinos”

Nesta imagem fotográfica foram trabalhados no Photoshop a fotografia de uma onda marítima que serviu de fundo e mais a fotografia de um violino.
O violino depois de fotografado contra um fundo preto, foi selecionado usando a ferramenta da varinha mágica do Photoshop na área preta da fotografia invertendo a seleção.
Assim selecionado o violino foi editado em três camadas (layers) idênticas. Cada uma destas camadas passou por manipulações diferentes de distorção e cada violino foi posicionado em outro ponto da imagem da onda.
Sobrepondo aos violinos a reprodução de uma parte central da imagem de fundo que era a onda marítima e deixando um grande degrade (feather) nas margens da seleção conseguiu-se dar a impressão de que os violinos estão, parcialmente, mergulhados na água.
Fundidas as camadas contendo as partes, o resultado final da criação da imagem fotográfica é o que se vê ao lado.

     
 
 
 

 

Título- “Portrait da Vera”

Partindo de duas fotografias com câmeras digitais e flash direto frontal criei a nova imagem ao lado.

O rosto de gesso do manequim da vitrine foi substituído pelo de uma pessoa real.

 

 

 
 

pergunto, como se conseguiria criar imagens fotográficas como estas em um laboratório químico tradicional! ?  

Qual seria o tamanho das dificuldades?!

 
 
Walter Brugger